A Paixão de Cristo
Não foi a cruz, nem foram os cravos, nem os espinhos, nem as
chuçadas, nem os bofetões, nem os apodos vis, nem os ditos acerbos, nem
as humilhações, nem o ridículo que magoaram e compungiram o Filho de
Deus, quando na Terra: foi amar sem ser amado; querer o bem sem ser
compreendido; pregar a verdade sem ser acreditado, pugnar pela justiça
sem ser atingido, e exemplificar sem ser imitado.
A paixão de Jesus-Cristo não se consumou no madeiro fincado no
calvário: ela vem se consumando através do tempo, à face do mundo.
Os seus algozes não foram os esbirros romanos, que o conduziram ao
suplicio; não foram tão pouco os filhos da populaça ignara, que ululavam
às portas do palácio de Pilatos, exigindo sua condenação.
Os algozes de Jesus foram, no passado, e são no presente, os falsos
profetas que, anunciando o reino dos céus, trataram e tratam de
conquistar o reino do mundo.
Os algozes de Jesus foram, no passado, e são no presente, as
autoridades venais, tiranas e desonestas que abusaram e abusam do poder,
escorchando o povo, de quem se disseram e se dizem defensores.
Os algozes de Jesus foram, no passado, e são no presente, os
hipócritas e charlatães que desvirtuaram e desvirtuam as coisas boas e
santas em proveito dos seus ignóbeis interesses, mistificando em nome do
Senhor.
Os algozes de Jesus foram, no passado, e são no presente, os
egoístas, os orgulhosos, os bajuladores, sensualistas, os adúlteros, os jogadores, os intemperantes, os embusteiros.
Todo esse séquito continua, hoje como ontem, a crucificar
aquele que é o símbolo do amor, da justiça, da verdade, e cuja doutrina é
o código da moral mais pura e elevada que imaginar se possa.
Do Livro – Nas Pegadas do Mestre - Vinicius

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