Lembrar a infância me faz bem
Lembro a casa grande, alpendrada, com a vista do açude, onde o gado bebia e de onde era retirada a água para o abastecimento de toda a casa. Ao lado, um grande engenho de cana, onde era feita a rapadura e uma casa de farinha, onde costumavamos brincar de boneca. Dentro da casa, na cozinha, um grande paiol de milho, de onde era retirado o milho seco para ser levado ao fogo e posteriormente moído, para fazer o cuscuz que era servido às refeições.
Um costume que trago ainda hoje e que aprendi com meus avós, João Paulo e Ana, é o de comer a qualhada com cuscuz de milho e padadura raspada. Essa a refeição de todas as noites, servida na casa de meu avô. Uma grande panela de barro era colocada com leite sobre uma forquilha, no canto da sala e, ali permanecia qualhando o leite, para que a noite, meu avô cumprisse aquele ritual em que ele mesmo raspava a rapadura que era servida à todos. Tudo acontecia em torno de uma grande mesa, cercada de bancos, onde sentavam crianças e adultos. Tudo à luz da lamparina.
Durante o dia, tudo para mim era mágico: apanhar algodão, com um enorme lençol atravessado ao corpo, onde o algodão era guardado; plantar o milho em covas que eram abertas por trabalhadores e que só nos cabia colocar as sementes e passar os pés fechando as covas; ir em busca das ovelhas dispersas e levá-las ao açude para beber e depois guardá-las no curral e a noite, em grande folia, retirar as sementes do algodão catado durante o dia.
Tudo era festa, até que todos tinham que se recolher e as lamparinas serem apagadas, quando começava o meu tormento do medo de dormir no escuro. Novo dia, tudo esquecido e, novas brincadeiras nos aguardavam.
Era assim que eu via, o dia a dia da casa de meus avós no período de férias.


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